Ocupa Cacilda!

Mordedores

A boca tem diferentes funções e significados em nossa sociedade. É através dela que nos comunicamos, é o primeiro contato com o alimento, consegue nos passar sensações de frio e calor, através dela que professamos nosso amor com beijos ou nossa raiva com mordidas e cuspes. Mordedores elege essa parte do corpo  como ponto de partida para um espetáculo vigoroso e incansável. O espetáculo se inicia como se estivéssemos diante de uma sessão de cinema hipnótico, os perfomers parecem mastigar incessantemente uma pipoca barulhenta, sem terem consciência. Consciência  do que estão mastigando, consciência do que estão assistindo ou mesmo engolindo, aqui o que importa é mastigar, ativar a musculatura, exercitar a mandíbula.

Apesar de ser um ato consciente, a mastigação não é pensada quando realizada para a alimentação, ela é feita mecanicamente. Um ato que destrói e despedaça cada colherada inserida em nossas bocas, cada pedaço de carne é triturado e reduzido a uma pasta insossa. Não percebemos a vigorosidade do ato d e morder, com a exceção de quando somos mordidos.

Mordemos para conhecer ao mesmo tempo em que mordemos para destruir. No espetáculo sentimos a dor e potência de cada mordida proferida pelos bailarinos realizada em seu companheiro, seu transe não tem fim, eles precisam morder, não podem parar, é como se, quando parassem, se desconectassem do grupo, se perdem diante da solidão, a unidade de grupo e de pertencimento existe quando o ato de morder é praticado. A mordida também possui um potencial erótico, de amor e brincadeira. Quando realizada com delicadeza, transborda sensualidade, como podemos perceber em diferentes momentos do espetáculo. Afinal, o ato de morder em si não possui apenas um significado, e sim diversos. Como sociedade interpretamos as mordidas, mordidas que são feitas a frente de muitos  ou apenas entre dois parceiros.

O espetáculo tem um caráter animalesco, parece que esses significados não são o que levam aos performers a morder, eles mordem porque precisam, mordem pois dependem disso e, quando finalmente param, o que sobra? Indivíduos desnorteados e desorientados, que não conseguem sair de seu estado catatônico e precisam se adaptar a esse  novo cenário, onde a mordida não pode ser feita. Para manter o contato, sem a mordida, é necessário criar novas soluções.

Afinal quando voltamos a nosso estado primário, nosso estado animalesco, é quando mais precisamos do contato, sentir que nosso grupo também está presente.

Foto: Renato Mangolin